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Milano 2008: design is (big) business

Alexandre Rocha

Tudo é superlativo em Milão. A cidade mais cosmopolita da Itália impressiona pelo seu dinamismo econômico e pela grandiosidade de suas atrações turísticas. Mas os Saloni 2008 (no plural mesmo, pois são 6 salões distintos) parecem ir além até mesmo dos padrões milaneses de exuberância. Vamos a alguns números.

Salone Internazionale del Mobile, Eurocucina, Technology For the Kitchen, SaloneUfficio, Salone Internazionale del Bagno e Salone Satellite. 230 mil metros quadrados de área expositiva, 2 450 empresas participantes, mais de 300 mil visitantes, 24 grandes pavilhões. Tudo o que há de mais avançado na industria de móveis residenciais, para escritório, cozinha e banho, sendo visto por visitantes de todo o mundo ao longo de 5 dias de caminhadas exaustivas. Parece uma peregrinação.

Mas, passado o deslumbramento inicial, cabe a nós, que estamos intimamente ligados ao setor moveleiro brasileiro, perguntar: afinal de contas, o que Milão nos ensina? Resguardadas as devidas proporções e diferenças entre Europa e Brasil, sem dúvida teremos muito mais a aprender se conseguirmos observar além das tendências de decoração (assunto que parece mobilizar os comentários sobre a Feira) e analisarmos o evento sob a ótica dos negócios e da estratégia das empresas.

OS SALONI RESPIRAM DESIGN
A aposta na inovação constante, com grandes lançamentos anuais, é o principal dínamo para manter a atenção do mundo voltada para Rho nestes cinco dias. Podemos perceber isso no modo como os designers são destaque em todos os estandes, com os seus nomes ao lado dos produtos por eles criados. Ou seja, os fabricantes valorizam os designers, e o design assinado valoriza os produtos destes fabricantes, numa espiral ascendente que mantém o brilho de marcas já consagradas e ajuda a destacar as marcas que buscam consagração. Este aspecto é muito interessante, é o modo como as empresas dizem “ei, nosso produto foi criado por um profissional de extremo talento, uma pessoa que dedica a sua vida a criar inovação e bem-estar, por isso é exclusivo e diferente!”

Outro aspecto importante é o cuidado que as empresas têm com todo o universo de promoção de seus produtos. Nem preciso dizer que os estandes são lindos e têm projetos extremamente criativos. Mas cabe chamar a atenção de que somado a isso temos catálogos, materiais promocionais e press-releases muito bem produzidos, e que estes elementos são coerentes entre si ao comunicar o posicionamento de mercado de cada empresa. Extiste uma grande “direção de arte”, um fio condutor para a construção e manutenção da imagem das marcas. E é isso que, somado ao design, possibilita que algumas delas sejam verdadeiras grifes e que seus produtos sejam desejados por muitos, em todo o mundo. Alguns exemplos, dentre tantos: Vitra, Kartell, Minotti, Calligaris, Unifor. Duvido que rentabilidade seja problema para elas!

Podemos perceber também que as empresas, de um modo geral, já possuem cada uma delas um posicionamento maduro, que reflete-se nas caractarísticas de seus produtos. Todos sabem o que esperar de uma Georgetti ou de uma Herman Miller – o que não quer dizer que elas não nos surpreendam, mas sim que elas já possuem um foco de mercado definido e será para este foco que os seus esforços criativos e comerciais estarão voltados. De fato, quanto mais maduro o mercado consumidor, mais focadas tendem a ser as empresas, pois os nichos de atuação já estão bem definidos. ノ diferente de nossa realidade aqui no Brasil, onde muitas vezes os fabricantes precisam defender o seu faturamento oferecendo ao mercado produtos em diversos níveis de preço e de acabamento, e onde apostar todas as fichas num único nicho pode ser perigoso. Mas atenção: o mercado brasileiro está num processo de amadurecimento e sofisticação, graças principalmente à estabilidade da economia e ao envelhecimento da população. Isto significa que vão se sair melhor as empresas que buscarem nichos e investirem na valorização de suas marcas. Acerca deste comentário, vide a revista Exame de abril deste ano.

A DIVERSIDADE COMO TENDÊNCIA
Seria muito superficial tentar definir três ou quatro tendências a partir do que foi exposto em Milão neste ano. Afinal, temos ali fabricantes de diversos países: Alemanha, Espanha, Suécia, Japão, Reino Unido, só para citar os mais evidentes, cada um deles com características próprias. Vou descrever rapidamente alguns aspectos que chamaram a nossa atenção, e que devem influenciar a industria moveleira e a decoração, pelo menos até abril do ano que vem.

É frequente encontrarmos um leve resgate do design de móveis dos anos 70, seja em cubos com arestas arredondadas, seja nas cores vibrantes dos dormitórios para crianças e jovens. As lacas coloridas reforçam esta sensação de dèja vú, se bem que nos móveis de sala as cores utilizadas são insaturadas e discretas. A paleta vai dos beges rosados aos verdes, azuis e castanhos. As cores cítricas ainda aparecem, mas se restringem aos móveis de plástico e a alguns detalhes dos móveis residenciais. Nas madeiras, os tons naturais mais claros e leves, num tratamento que deixa os poros bem à mostra. Lâminas de BP com texturas bem marcadas. A atenção aos detalhes – pés, puxadores, ferragens – é extrema, e é neles que muitas vezes se dá a diferenciação entre os produtos de uma ou outra marca.

Móveis de quarto e de cozinha destacam-se pela engenhosidade e integração com a arquitetura. Alguns exemplos: nos armários embutidos, é comum a iluminação por LEDs, assim que as portas se abrem. A TV de LCD “ escondida” na porta do armário causou sensação: quando desligada, a TV simplesmente desaparece, em função da cor do vidro. Nos dormitórios de solteiro, a cama recolhe-se junto à parede, e debaixo dela sai um sofá; uma estante vira uma escrivaninha: ambientes que se transformam por completo.

Estofados, por sua vez, valorizam as costuras e as proporções horizontais, com almofadas macias que se moldam ao corpo. Revestimentos aparentemente rústicos, similares ao feltro, também marcaram presença. Por fim, as cadeiras: para todos os gostos, em plástico injetado ou em madeira, em diversas cores e assinadas por gente como Philippe Starck, Pascal Mourgue, Alberto Meda, Castiglioni, Antonio Citterio, Studio Archizoom, dentre outros. Um espetáculo!


Daniela Ferro Gil, Izabel Bradasch e Alexandre Rocha, diretores da Asa Design, estiveram na Itália de 14 a 21 de abril.

“ei, nosso produto foi criado por um profissional de extremo talento, uma pessoa que dedica a sua vida a criar inovação e bem-estar, por isso é exclusivo e diferente!”