A designer Daniela Ferro fala sobre os desafios da indústria moveleira – e do design – para alcançar a sustentabilidade
Por Alice Duarte, de Curitiba
Daniela Ferro, head-designer da Asa Design
A indústria brasileira de móveis é sustentável?
Há muitas indústrias dizendo que são sustentáveis, mas suas ações não têm consistência. No segmento de alta decoração e no trabalho com design assinado, mais autoral, há mais espaço para introduzir práticas sustentáveis. Porém, isso não é bom porque fica restrito à elite. Por outro lado, podemos ver alguns designers e empresas caminhando nessa direção. Aos poucos vamos conseguindo introduzir ações mais sustentáveis na indústria, assim como fazemos dentro de casa, quando separamos o lixo reciclável.
Como você vê o panorama atual?
Hoje estamos vivendo a cultura do descartável. E isso é mais acentuado nas indústrias de móveis populares, que não trabalham com matérias-primas duradouras. O resultado são peças que não resistem ao desgaste e que logo viram lixo. O destarte de um móvel é complicado. A maioria das peças é fabricada em MDF, que tem formol em sua composição. Hoje já existe o chamado MDF ecológico, mas não são todas as fábricas que usam. Ainda temos o revestimento melamínico de Baixa Pressão (BP), que leva resina sintética (e é muito mais barato que a lâmina de madeira), e o poliuretano das espumas dos estofados e colchões. O segmento moveleiro no Brasil ainda não discute a logística reversa dos produtos. A própria fábrica teria que ter estrutura para receber o móvel de volta, mas geralmente são empresas pequenas. A discussão existe em alguns países avançados como a Alemanha. Aqui isso teria que começar primeiro pelas indústrias alimentícia e de cosméticos, que produzem uma quantidade absurda de embalagens.
Qual o papel do designer nessas escolhas?
O designer fica muito em cima do que é tendência. Na feira de móveis de Milão, por exemplo, praticamente não há madeira maciça. Lá se trabalha muito com revestimento em laca e lâmina de carvalho, uma madeira que aqui no Brasil precisamos importar. Com a diversidade da flora brasileira, por que não utilizar madeiras nacionais? Percebo que já existe um desejo de usar lâminas de madeiras nacionais na alta decoração, como o pau ferro, frejo e sucupira.Não dá para ficar amarrado em soluções padronizadas que vêm de fora. É preciso olhar ao redor, ser mais criativo nessas escolhas. Ao contrário da Europa, o Brasil tem potencial para produzir móveis mais naturais, biodegradáveis, que valorizam o uso da madeira, da fibra e de tecidos naturais.

Cadeira Prosa, projeto desenvolvido para Formaludens
Os móveis de madeira maciça têm outro status na decoração. Nesse nicho, o que seria mais sustentável usar?
O pinus e o eucalipto são alternativas interessantes. Os designers estão olhando com outros olhos para essas madeiras de reflorestamento. Por outro lado, apesar de serem renováveis, estas florestas plantadas são ruins para a biodiversidade, mas ainda sim é melhor que usar madeiras da Amazônia, principalmente porque a gente não sabe se foi tirada da maneira correta, conforme a lei. Não dá para confiar muito porque sabemos que no Brasil existe corrupção dentro dos órgãos de fiscalização. Não acho errado usar madeira brasileira, mas tem que investigar se é madeira de devastação ou de manejo. Outra opção interessante na alta decoração é reutilizar materiais nobres, como a madeira de demolição, que está muito valorizada.
Até que ponto um selo de móvel ecológico influencia a decisão do consumidor?
Tenho um cliente moveleiro que acha que ser sustentável não é argumento suficiente para o sucesso de um produto, e sim o design. O design que a gente faz tem que ser bem sucedido, ou seja, gerar vendas para manter as indústrias e os empregos. Para vender, esse produto precisa ter qualidade, preço justo e ainda emocionar o usuário. Isso é o que o consumidor procura. Achar o equilíbrio é o grande desafio de hoje.
O preço é hoje o maior inimigo da sustentabilidade?
Pode se dizer que sim. Estamos enfrentando um problema muito sério que é a importação maciça de produtos chineses. Até mesmo as indústrias de móveis estão trazendo peças de lá. É possível dizer que hoje os produtos chineses têm mais qualidade, ao contrário do que ocorria no passado. Eles estão chegando no Brasil com mais qualidade, mais baratos e ainda com design. Por causa disso algumas fábricas nacionais estão pensando em desistir de fabricar cadeiras, tamanha é a invasão desse produto.
Cadeira Mira, projeto desenvolvido para Formaludens
Como reverter essa situação?
O certo seria o consumidor praticar aqueles três “Rs”: reduzir o consumo, reutilizar e reciclar. Sei que tem gente que prefere comprar um móvel de plástico ao de madeira, por ser reciclável. Mas eu prefiro um móvel biodegradável e que dure bastante. A moda retrô está muito forte. Por toda parte há gente dando outro uso para aquele móvel da casa da avó e isso é um caminho interessante na decoração. Trabalho para que as peças tenham um design mais significativo, mais elaborado, que tenham valor agregado e que não sejam facilmente descartadas. Que quando elas não tiverem mais uso em uma casa, que ainda possam ter uma sobrevida em outro lugar.