Equipe da Asa Design encara o desafio de subir o Monte Crista e descobre que o caminho reserva grandes ensinamentos
Por Alice Duarte, de Curitiba
Ritos da Montanha é realizado sempre no mês de maio no Monte Crista
Estabelecer uma meta elevada, fazer um detalhado planejamento para alcançá-la, enfrentar obstáculos, trabalhar em equipe, superar os próprios limites, apoiar e ser amparado. Estas e outras lições que todos devem colocar em prática num ambiente corporativo puderam ser vivenciadas pela equipe da Asa Design durante o Ritos da Montanha, realizado no último dia 21 de maio. Conduzida por José Scussel, fundador da pousada Monte Crista Ashram, esta é uma vivência de subida ao Monte Crista, montanha mágica localizada próxima à cidade catarinense de Garuva. As designers Daniela Ferro Gil, Rossana Manaka e Ana Paula Migueis, todas marinheiras de primeira viagem, encararam este desafio como um treinamento para lidar com as dificuldades que a toda hora surgem na vida profissional.
Elas se juntaram a um grupo de quase 40 pessoas que participaram da atividade, incluindo o pessoal de suporte e organização. Como a montanha é muito próxima ao litoral, a caminhada inicia praticamente no mesmo nível do mar. São mil metros de altitude, que se convertem em uma caminhada íngreme e exaustiva até o cume. A jornada iniciou às 8h30 do sábado e se estendeu até o final do dia. Isso porque todos permanecem juntos e seguem na velocidade ditada pelo mais lento do grupo, que propositadamente é posicionado na dianteira.
Desafios
A subida da montanha reserva surpresas, belezas, desafios e muito mistério. Logo de início o grupo teve que atravessar o rio Três Barras a uma temperatura nada agradável. Por conta da chuva que caiu antes, todos pegaram a trilha enlameada e muito escorregadia. Nos pontos mais difíceis, a subida para alguns só foi possível com a ajuda dos mais experientes. “Teve uma situação que se eu não tivesse ajuda, não conseguiria chegar ao final sozinha”, diz Rossana. Em um momento ela caminhou na frente de todo o grupo. O fato de saber que se ela parasse ali todos também parariam, começou a deixá-la ansiosa e ofegante. “Mas nessa hora o José, que vinha atrás de mim, começou a cantar uma música e logo me acalmei. Se você está no grupo, você é o grupo. Apesar das dificuldades, você não pensa em parar e voltar sozinha”, diz.
Mas nem tudo são espinhos. Há belíssimas cachoeiras pelo caminho e em alguns trechos é possível ver um antigo e misterioso calçamento de pedras que, segundo a teoria de alguns historiadores, é parte do Caminho do Peabiru, via pré-colombiana que unia povos indígenas sul-americanos.
O grupo conseguiu chegar ao topo da montanha ao entardecer. Lá em cima, uma equipe de suporte os aguardava com uma grande tenda armada e uma quente sopa de abóbora. Todos fizeram uma pausa no acampamento, deixaram as mochilas e foram até o cume, onde fica o mitológico guardião de pedra, uma figura esculpida pelo tempo, que acreditam ter sido usada para rituais indígenas no passado. A vista lá de cima, de onde é possível avistar até o litoral de Santa Catarina, ficou encoberta naquele dia um por denso nevoeiro.
Ritual
De volta ao acampamento, todos se posicionaram em forma de mandala dentro da tenda. Ali dava início ao famoso ritual comandado por Scussel, um momento de paz e transcendência onde todos são convidados a se conectar com bons sentimentos, bons pensamentos e com a essência da natureza. “Nessa hora a pessoas começaram a dar seus depoimentos contando sobre suas vidas ou sobre a experiência da subida”, relata Ana Paula.
A designer Rossana Manaka
Todos permaneceram por horas na mandala, alguns deitados, alguns sentados, outros dormindo. “As pessoas seguraram velas e começaram a cantar mantras. Foi um momento muito maravilhoso. Apesar de estar muito cansada, eu não dormi no início, fiquei naquele estado de vigília”, conta.
A designer Ana Paula Migueis
Depois teve a unção com óleo nos chakras que são centros de poder, e todos receberam um colar com um pequeno guardião de pedra. “No final, o cansaço mental e físico é tão forte que você chega num estado alterado de consciência, mas lá você recebe palavras bonitas e logo se recupera. Achei que fosse haver doutrinação. Mas vi que não se trata de religião, são ensinamentos bem universalistas. O José apenas ajuda você a se ajudar”, observa Rossana.
O cansaço também preocupou Ana Paula durante a noite. “Eu cheguei exausta lá no topo e pensei: ‘Como é que eu vou descer neste estado amanhã?’ Mas me disseram que a energia do lugar era tão forte que no outro dia eu estaria restaurada. Lembro que depois do ritual eu apaguei. Quando acordei, às 7h da manhã, após cerca de quatro horas de sono, parecia que eu tinha dormido a noite toda. Estava com disposição para descer”, diz.
Durante o retorno, Rossana conta que começou a refletir sobre sua própria história de vida e a dos outros que fizeram seus depoimentos. O encerramento oficial da vivência aconteceu na última etapa da descida, onde há uma clareira na mata. “Lá tocaram uma música muito bonita, e a letra mexeu tanto comigo que comecei a chorar e não parei mais. Todos se abraçaram, foi muito bonito”, conta Ana Paula.
Além do cansaço, no final de tudo restaram as experiências enriquecedoras e as lições aprendidas no caminho: auto-superação, determinação, cooperação e solidariedade, que vão continuar reverberando de maneira intensa e subjetiva para cada participante. Como diz Scussel: “A cada um compete construir sua experiência. Prazer ou dor são escolhas que se aprende a fazer. Desistir é uma possibilidade, assim como aceitar limites, descobrir forças, persistir e superar”.
Na chegada ao cume, denso nevoeiro
Esta vivência acontece uma vez por ano, sempre no mês de maio. Este ano foram organizados três grupos, que se dividiram em três finais de semana. Para quem ficou interessado nessa vivência, acesse o site www.montecrista.org ou entre em contato pelo email pousada@montecrista.org para mais informações.